Posterous theme by Cory Watilo

Filed under: Ódio

O Portugal real

Devido aos problemas que o meu computador portátil tem tido e também devido às preocupações causadas por outros problemas, não tive tempo de  comentar neste blog o homícidio de Carlos Castro. Na verdade, mais do que comentar o macabro incidente, apetece-me comentar as reações que se seguiram e que demonstram que Portugal está longe de ser o país civilizado que alguns avanços legislativos recentes fariam supôr.

Já tinha comentado várias vezes a preocupação que sentia ao ler o conteúdo dos comentários a diferentes artigos publicados nas edições eletrónicas dos jornais. A homofobia, o ódio religioso, a desconfiança pelo que é diferente. Tudo isto são motivos de preocupação para mim, e já várias vezes pensei que talvez os jornais tivessem o dever de refletir na utilidade destes comentários, em especial quando eles são utilizados para destilar ódios e apelar a comportamentos que deveriam ser condenados.

Mas nada do que tinha visto até aqui se aproximou do ódio visível nos comentários às notícias sobre o assassinato de Carlos Castro. Dos que dizem que ele teve o que merecia (como se alguém merecesse uma morte daquelas), aos que quiseram fazer do assassino um herói, tudo serviu para expressar o ódio por alguém que sempre teve a coragem de assumir publicamente a sua opção de sexualidade.

Entre as reacções que se seguiram chocou-me a tentativa que os familiares e amigos fizeram para garantir a heterossexualidade do Renato Seabra. Como se a homossexualidade fosse um crime mais grave do que mater uma pessoa da forma brutal como ele matou.

Quando a Espanha aprovou a lei que permitia o casamento entre pessoas do mesmo sexo comentei (e julgo mesmo que o escrevi no meu anterior blog) que só me casaria num país onde todos tivessem acesso ao casamento independentemente da sua opção sexual. Hoje vejo que em Portugal nada mudou com a aprovação da lei. O acesso ao casamento pode estar agora garantido a muitos a quem esse direito estava negado, mas as mentalidades não se mudam por decreto. E no fundo, por muito que me custe, Portugal continua a ser o mesmo país provinciano que olha para os homossexuais como aberrações da natureza, e que quando perguntado sobre quem foi a personalidade mais importante da sua história escolhe um ditador.

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